São Paulo – Em 1943, quando a perseguição nazista se intensificava na Itália, a família Pardo decidiu arriscar tudo para sobreviver. Guiados por um contrabandista e pela coragem, atravessaram os Alpes a pé rumo à Suíça. Entre eles estava Ariella Pardo Segre, então com apenas três anos, que mais tarde recordaria: “Eu dormia andando”.
A fuga desesperada
Após a volta de Mussolini ao poder e a presença da Gestapo em Bolonha, Ferrucio Pardo, professor de filosofia, tornou-se alvo direto. Alertado pelo vizinho Alfredo Giommi, ele, a esposa Íris Volli e os filhos Lucio e Ariella iniciaram uma fuga clandestina.
“Fugimos com a roupa do corpo e com dinheiro que tínhamos no bolso”, relembra Ariella.
Primeiro viajaram em um vagão de animais até Milão, tentando despistar os soldados. De lá, seguiram pelas trilhas geladas dos Alpes.
O preço da sobrevivência
Um contrabandista de cigarros aceitou guiar o grupo. Para que carregasse Ariella nos braços durante a travessia, Íris entregou seu anel como pagamento. O frio, o medo e a exaustão marcaram cada passo. Ariella, ainda criança, não compreendia a gravidade da situação, mas guardou na memória a sensação de caminhar sem forças, quase adormecida.
O silêncio da noite
A estrada era estreita e todos seguiam em fila indiana, em absoluto silêncio. Foi quando, de repente, sua mãe, Íris, escorregou e desapareceu em meio à escuridão. Ariella gritou. Um grito agudo foi rapidamente abafado pelas mãos de um desconhecido, que lhe tapou a boca.
A menina perdeu os sentidos e desmaiou.
“Me reanimaram e quando abri os olhos, vi uma porção de gente em volta de mim. Me disseram: ‘cala a boca, sua mãe está morta; se você gritar, morremos todos’”.
Mesmo assim, o grupo decidiu continuar o percurso.
Reencontro e refúgio
A travessia terminou com a família reunida. A mãe de Ariella fora encontrada viva e levada por outro grupo de refugiados até a fronteira com a Suíça. Naquele país, os Pardo estabeleceram moradia até o fim da Segunda Guerra Mundial.
Memória e resistência
Décadas depois, já idosa, Ariella reconhece que aquela travessia salvou sua vida e a de sua família. Sua história é um testemunho da luta de milhares de judeus que buscaram refúgio em meio ao terror nazista. Mais do que lembrança pessoal, é um alerta contra o negacionismo e a intolerância que ainda persistem.














